terça-feira, janeiro 25, 2005

Crónica matinal

Não me quero perceber a mim, nem os quero perceber a eles. Simplesmente não existem. Ninguém existe à minha volta. Nada me atormenta. São apenas formas indistintas, cheiros neutros, imagens sem cor que vagueiam por aí, errantes no tempo e no espaço. Cada um tem o seu. Eu tenho o meu, porque tenho mesmo que tê-lo. Porque existo e tenho que ocupá-lo para circular, para me movimentar. A culpa é do cão. Ofereceram-me um há uns meses. É um daqueles irrequietos, que se mexe constantemente, e eu lá o tenho de ir passeando, com uma trela. Por vezes tenho de levá-lo à rua, preso pela mão para que ele não possa fugir. Ainda aqui à dias, distraí-me e ele soltou-se. Correu desenfreadamente até à estrada, ainda fui a correr atrás dele para apanhá-lo, mas já não havia nada a fazer: veio um carro e apanhou-o em cheio no lombo, projectando-o a uns bons três metros de distância. Pensei que tinha mesmo sido desta que o animal ìa desta para melhor, e por minha culpa. O condutor do veículo nada podia fazer, pois o animal soltou-se por entre vários carros estacionados, e ele nem teve sequer tempo de travar e reduzir a marcha. Nem sequer parou, coitado, deve ter entrado em estado de choque, pois não estava concerteza à espera que lhe aparecesse súbitamente assim um bicho à frente, vindo do nada, enquanto conduzia calmamente, ao ritmo da sua vidinha. Continuou até ao cruzamento, e desapareceu. Pus as mãos à cabeça, e deseperado soltei bem alto uma série de palavrões. O animal, levantou-se e meio a coxear foi-se esconder atrás de uns arbusto, com vergonha. Chamei por ele mas nada. Lá o descobri, por fim. Olhou para mim envergonhado, receando uma repreensão severa da minha parte. Não lhe disse nada, e estava eu próprio em choque, convecido que ele ía mesmo morrer, e por negligência minha. Levei-o para casa, num táxi, e pu-lo na cozinha, coberto com mantas. Tratei de uma ferida que tinha na perna, com betadine, e liguei a um veterinário, para que me pudesse ajudar. Estava fechado aquela hora, mas lá me foi dizendo que aquilo podia não ser grave, pois o seu próprio cão já tinha passado por uma situação semelhante, e havia sobrevivido sem mazelas. Disse no entanto para passar por lá de manhã, e tirar umas radiografias. Sempre fiquei mais sossegado, embora ainda muito nervoso. No dia seguinte o cão já se levantava, caminhava até, embora coxeando de uma pata, e engolia àvidamente os biscoitos que lhe ía dando. Não cheguei a ir ao veterinário. Hoje, passado umas semanas, está como novo. Não ganhei para o susto. Espreguiço-me e vou à casa de banho. Não resito a olhar-me ao espelho, embora me arrependa sempre no final. Não posso deixar de reparar que tenho as pupilas extremamente dilatadas. A pele não está branca e luminosa, como esperaria. Lá fora,um condutor apita frenéticamente, mesmo por baixo da janela do meu quarto. Abro a janela finalmente, e sou inundado pela luz do sol. Reparo na enorme fila de trânsito provocada por um autocarro que por ali empancou. O condutor, aqui já reparo que se trata de uma condutora, continua a apitar. Grito-lhe igualmente uns impropérios mudos, já que devia saber que daquela forma não vai conseguir resolver nada. Além do mais, aquele apito constante enerva qualquer um. Por esta hora já deve ter acordado a vizinhança toda. Porque será que as pesoas se sentem na obrigção de projectar o seu sofrimento nos outros? Não lhe chega a ela própria estar irritada, que se sente logo na obrigação de irritar todos em sua volta também? Reparo nos outros condutores, que apesar de igualmente perturbados, vão-se controlando e não tomam parte naquele show-off. Terão-lhe-ão agora concerteza mais ódio a ela, do que ao próprio condutor do atucarro. Desço para tomar o pequeno almoço. Reparo que voltei a colocar demasiados cereais dentro da tijela. Sei que não os vou conseguir comer a todos, e depois vou ter de vazar o resto no lixo. E é um desperdício fatal, pois os poucos que restam na embalagem não chegarão para uma refeição completa. Evitando este desperdício, chegariam perfeitamente. Subo aos pisos de cima e reparo que já todos se levantaram. Todos não: A Joana ainda dorme. Mas ela é também uma errante, e está em fase de recuperação, o que se desculpa. Para além do mais, dorme sempre o número de horas regulamentares, ou até mais, e deita-se cedo. O único vício dela é mesmo o excesso de televisão. O trânsito já parece circular normalmente. Já acabei o leite, mas reparo que ainda tenho a tijela quase meia de cereais. Que desperdício! Ou os deito fora, ou terei de voltar à cozinha para meter mais leite. Vou ficar empanturrado. Mas que se lixe. Chego ao frigorífico, e reparo que o último pacote foi para o lixo. Vou ter de abrir outro, só por causa deste bocadinho. Já temos poucos, e como aqui ninguém anda bem de dinheiro devia racionalizá-lo. Abri-o na mesma. Tirei o necessário e voltei a subir. Pelo caminho reparo na imagem de uma criatura frágil a ser brutalmente espancada pela polícia. É para repôr a lei e a ordem, diz o pivôt do noticiário, como se fossem os próprios porta-vozes dessa lei e dessa ordem, feita por políticos corruptos, que se prostituem cada um de acordo com os seus interesses. Ainda hoje morreram não sei quantos em Bagdad, e por cá a pré-campanha eleitoral está ao rubro. O mundo gira todo ao contrário. Acendo mais um cigarro. Antes tinha receio de fumar em jejum. Agora espeto-lhe com três logo de seguida, só porque me sabe bem. Afinal voltaram a sobrar cereais, mas já estou cheio e não vou voltar a descer. Devia aproveitar a moleza daqui resultante, para me voltar a deitar, e recuperar o número de horas de sono perdidas. Hoje queria acordar fresquinho, para ir trabalhar, para me dedicar a coisas que dizem ser importantes, e determinantes para o nosso futuro: os estudos. E por mais que eu fuja deles a sete pés, lá me vou começando a convencer que é verdade, e que vou mesmo acabar, um dia, por começar a gostar deles. Ouço o autocarro a passar novamente. Desta vez, sem problemas. Abro a janela, e reparo que a rua está deserta. Apenas um carro ou outro, vai passando de vez em quando. A joana acordou agora. Já a ouço abrir as janelas e barulho na casa de banho, que fica aqui mesmo ao lado do meu quarto. Quanto a mim, depois de um curto raciocínio, decido dormir mais um pouco. Não me sinto ainda suficientemente desperto para começar o dia. Farei os meus deveres depois mais tarde.

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