domingo, janeiro 23, 2005

Devaneio Último

Grandessíssimo filho da puta! Sinto. Pena. Paciência. Não consegui contornar, e deixei-me levar na escrita... Sublinho contudo, não ter tido intenção de provocar acidentes. Era particular. A questão estava centrada em mim. Era interior. Uma pulsão destrutiva levava-me a fazê-lo. Mas aconteceu. Não havia alternativa. Posso parecer irracional. Egoísta. Admito. Seria preferível ter escrito sobre outros temas, outras encarnações. Talvez. Teria por ventura outro final. Mais silêncio. Menos tensão. Alguém entrou sem permissão. Aparentemente parece estar agora tudo bem. Mas não. Ficou qualquer coisa. Uma sensação. Uma imagem. Um olhar. Céptico, desconfiado, revoltado... E a imagem, ausente, distante, indiferente. Permanece ancorada lá no fundo. Espero pelo tempo... Desespero... Extravazo inconscientemente. Perco-me progressivamente. Não controlo. A loucura escapa-se-me cá para fora ruidosamente... A alienação toma-me a existência por completo. A catástrofe é eminente... Desisto... Quando dou pelas horas, o despertador já tocou. Acordo. O pânico assalta-me. Afinal não estava a dormir. Não tenho objectivos. Nem motivações realistas. Embora a questão sempre tenha estado escondida por detrás das formalidades protocolares. Fujo. Tenho vergonha. A minha imagem repugna-me. Não quero mais agir. Vou-me limitar a coexistir. À minha volta formou-se uma nuvem cinzenta. Com o tempo, atingiu os limites do insuportável. Não só não me consigo compreender, como me vou deixando despreocupadamente perpetuar sem pensar nas consequências finais. Irreversível. Um final que não impressiona. Nem sequer o tento mais analisar. O tempo. Cura milagrosa que me vem salvar quando tudo o resto falha. Parece um raciocínio lógico e linear... Vendo a alma ao diabo, admito a derrota, invento uma desculpa e saio sorrateiramente pela porta dos fundos. Começarei de novo. Regressarei ao zero. Farei tábua raza de tudo. Imaginarei continuar a existir. Serei gelo, éter, vazio, buraco negro... A vida é uma viagem. Meto-me ao caminho sem bagagem. Circulo rápidamente. Chamam-me. Inconsciente, mendigo, cobarde, vadio, vagabundo.. Apenas um corpo e um saco vazio. Aqui cabem todas as memórias. Se corre é porque é ladrão. Ciclos que se repetem. Tentei a todo o custo evitar o caminho de regresso. O confronto é catastrófico. Não admiti o fracasso. Uma simples constatação lógica. Adiar eternamente os factos. Queria viver desligado de tudo e de todos. Essa parecia ser a solução ideal... Pela estrada fora caminho. Um novo recomeço. Uma segunda oportunidade, uma diferente reencarnação, uma realidade paralela... Em breve estarei no meio de uma multidão de desconhecidos, e aí, sentir-me-ei seguro. Rezo para que os dias passem rápidamente. Desejaria tornar-me invisível. Tremo de desconfiança perante quem passa. Pedem-me um nome. Não falo por gestos, muito menos por palavras. Evito o olhar. Afasto-os pela distância. Finalmente vão embora, murmurando. Agora sou eu quem escolhe. Não me importa o que possam pensar. No dia seguinte já não se lembrarão. Um imenso deserto. Nada há a ganhar, quando se admite ter perdido. Solidão amiga. És tu que me corróis a alma. Protege-me dos seres decadentes. Mutações hormonais, bichos primitivos, corpos sem espírito, animalescos instintos, que me traem constantemente... Coexistem, cruzam-se, interagem... São sono sem sonho, ilusões sem fantasia... Pudesses tu trazer-me de volta tudo o que perdi. Não me quero voltar a trair a mim próprio! Serei invencível, de pedra, inquebrável... Rio-me... Uma ânsia descontrolada assalta-me constantemente.. Rasga-me por dentro. Olho para o chão, e vejo um imenso lago de sangue à minha volta... Levo as mãos ao peito, tentando estancar a hemorragia... O sangue jorra-me por entre os dedos... A mão afunda-se lentamente dentro do peito... Um enorme buraco. Palpo um osso que me parece ser uma costela, toco um tecido estranho que me parece ser um pulmão.. enterro a mão e tento alcançar o coração para ver se ainda bate... tento deixá-lo no mesmo sítio, retiro a mão bruscamente, tento fechar o peito deseperadamente... Queria eu acordar agora e que tudo isto fosse apenas um sonho... Desisto... Sinto que é o fim, que vai acabar a qualquer momento.. Deito-me, fecho os olhos. Espero que tudo termine rápidamente... A madrugada é um universo estranho. Um sono-sonho, que é nada, e parece representar tudo. Um olhar. Um sorriso. Uma lágrima. Anos, meses, semanas, dias, horas, minutos passados sem que o tempo avance. Um pesadelo interminável... Consigo manter-me distante de tudo, menos de mim próprio. As imagens continuam cravadas na mente... Queria fugir do meu universo, arrepiar caminho.. Queria fugir para sempre por um atalho obscuro sem mapa de regresso.. Ouço vozes. Palavras que me parecem despertar. O tempo traz-me de volta.. Eram apenas alucinações. O tempo, esse carrasco do destino, que volta sempre para me julgar... Desaparece súbitamente. Arrumo tudo num cantinho, bem recalcado, e pretendo esquecer. Vou continuar infinitamente a adiar...Até ao dia em que o cansaço me deixar dormir. Noites passadas. Brancas. Queria despertar novamente. Odeio relógios, calendários. Não me dou com eles, nem eles comigo. Não lhes darei o prazer de desistir novamente.. Nunca lhes voltarei a pedir perdão. O destino é implacável... Enquanto isso, vou escrevendo umas frases no quarto para passar o tempo.. Depois apetece-me partir tudo, arrancar a tinta das paredes... Uns riscos por cima, e tento camuflar as palavras, tornando-as imperceptíveis. No final, um imenso borrão, que se reflecte numa pintura caótica, sem ponta por onde se lhe pegue... Não há nada a fazer. Não sobra tinta para pintar, e já é tarde demais para se conseguir apagar. Tento esquecer este ciclo vicioso, e saio de casa. Já é dia. Mas tudo é tão diferente agora. Olho as paredes da rua, brancas, limpas, lisas.. Agonio-me... Vomito. Droga! Apetecia-me riscar tudo à minha volta. Pego numa pedra de calçada e atiro-a contra uma esquadra. Um polícia corre atrás de mim. Fujo e escondo-me rápidamente atrás de uma esquina. Maldito! Reflicto. Perdi a razão. Um dia, quando me esquecer, repetirei tudo. Não consigo fugir definitivamente de mim próprio. Queria pensar que tudo acabou. Mas o infinito é muito tempo. O tempo não tem fim. Tentarei esconder-me. Uns momentos de sobriedade serão suficientes. Depois voltarei a esfaquear-me novamente... É um ciclo. A minha voz irrita-me. O meu cheiro repugna-me. As minhas conversas, aborrecem-me de tédio. E o sabor do meu sangue faz-me vomitar. Sinto-me desfalecer. Perco os sentidos... Esse momento chegou. Os sinos tocam as sete da manhã, e eu sei que aquela era a última vez. Que o relógio está em contagem decrescente... Perdi a oportunidade. Deito-me rendido. Fecho os olhos e tento adormecer. Não espero pelo dia. Baixo as persianas. Não quero ver o sol! Não sairei à rua. Todas as noites são noites diferentes. Todas as sensações são sensações diferentes. Toda a realidade é uma realidade diferente. Cada um tem a sua própria percepção dos acontecimentos. Eu tenho esta e não consigo perceber porquê. Eram impressões instintivas e incompreensíveis nos primeiros tempos. Pareciam passageiras. Pouco determinantes. Depois, numa fase posterior vejo-me forçado a lutar contra elas. Emprego todas as minhas forças para não me render ao abismo... Um dia dei por mim a exorcisar fotografias antigas. Tentando apagar os momentos decisivos. Decidi agora descansar um pouco. Perdi-me por completo. Á deriva no oceano do caos. Limito-me a aguardar o final do mais estranho período da minha vida. Apesar de tudo houve aspectos positivos. Consegui-me libertar da razão pura. Fui livre por momentos. Acreditei viver um sonho, por instantes. E no final, consegui tirar algum prazer do sofrimento... Paguei a minha pena, e fiquei um pouco mais aliviado. Mas nos momentos marcantes, tudo se volta a repetir. Aprenderei a suportar tudo isso. Amarei a calma, a harmonia, o sangue frio. Um dia ficarei sozinho. Saberei aguardar a libertação. Até lá existirei sem dizer nem mais uma palavra.

Um dia entenderei tudo isto...

Adeus

Até esse dia...

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