sexta-feira, junho 11, 2010

Frases do escritor Vergílio Ferreira

Não penses que a sabedoria é feita do que se acumulou. Porque ela é feita apenas do que resta depois do que se deitou fora.

A mulher mais ciumenta é talvez a que mais facilmente atraiçoa o marido e menos tolera que ele a atraiçoe. Porque o ciúme é a afirmação de um direito de propriedade. E esse direito reforça-se com a traição dela e diminui-se com a dele.

Não consideres petulante um autor quando diz que os outros lhe não interessam nada. Pensa apenas que não é o que os outros fazem que ele quereria fazer. E não o julgues petulante mas honesto. Ou humilde.

O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.

Ama o impossível, porque é o único que te não pode decepcionar.

Teve uma ideia, tão original e tão esquematizada em máxima sentenciosa, que se tornou um lugar-comum e perdeu a originalidade. Mesmo para quem a criou.

Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.

O amor afirma, o ódio nega. Mas por cada afirmação há milhentas de negação. Assim o amor é pequeno em face do que se odeia. Vê se consegues que isso seja mentira. E terás chegado à verdade.

Que importa que já o saibas? Só se sabe o que já nos não surpreende.

Chora aos berros como as crianças até te estafares. Verás que depois adormeces.

Crer para ver.

Não penses que a sabedoria é feita do que se acumulou. Porque ela é feita apenas do que resta depois do que se deitou fora.

Não consideres petulante um autor quando diz que os outros lhe não interessam nada. Pensa apenas que não é o que os outros fazem que ele quereria fazer. E não o julgues petulante mas honesto. Ou humilde.

Ama o impossível, porque é o único que te não pode decepcionar

Se és artista, não fales em ser maior ou menor, para não confundires a tua obra com uma prova de atletismo.

De duas ou mais dores simultâneas, a nossa atenção escolhe uma e quase esquece as outras. Na ruína do nosso tempo, vê se escolhes o mais importante dela. Evitarás assim o ridículo de chorar a perda de um alfinete numa casa que te ardeu. E a História olhar-te-á com simpatia - talvez vá mesmo para a cama contigo.

Toda a explicação pressupõe o conhecimento do inexplicável, ou seja, do que seria mais interessante explicar.

Não se pode verdadeiramente admirar senão quem está longe. Porque só a distância nos garante que não cheire mal da boca.

O que o moralista mais odeia nos pecados dos outros é a suspeita acusação de covardia por não ter coragem de os cometer.

A mulher escolhe sempre o homem que a escolhe a ela, como é da sabedoria das nações. A verdade também.

Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima.

Não há amor como o primeiro, mesmo que esse primeiro seja o último.

Jovens e nus frente ao mar, estão presentes em cada célula do seu corpo. Mas a vida que têm é demais para eles e não sabem que fazer dela. Emergem da água rutilantes e riem. Depois deitam-se na areia, gastam o dia e a noite a amar-se, a embebedar-se, a estoirar todo o prazer e forças que têm. E ficam ainda com vida por gastar. É desses sobejos já com bolor que terão de viver depois na velhice.

Quando se apanha um mentiroso, ele pode perguntar-nos - e o que é verdade? E o mais provável é termos de o deixar seguir.

Pois. Tiveste em jovem a tua ideologia. Mas envelheceste. E a velhice tem já as suas falhas de memória. E uma das maiores falhas de memória é persistires no que te torna já um maníaco.

A crença seja no que for é um resíduo de tudo o que falhou.

Porque é que dizes quem me dera ser feliz e não dizes quem me dera ser medíocre? Porque dirias a mesma coisa. E o que provas ao dizê-lo é só que afinal já o eras.

Falar alto para quê? Poupa as forças, fala baixo. Poderás talvez assim ser ouvido ainda, quando os outros que falam alto se calarem estoirados.

Ser inteligente é ser desgraçado. O imbecil é feliz. Mas o animal também.

Um deles era muito inteligente e aprendeu tudo, entendeu tudo e levou isso tudo consigo quando morreu. O outro era razoavelmente estúpido e inventou um modelo aperfeiçoado de aguça-lápis. E existiu mais.

Não te entristeças por não poderes já ver o que verão os que vierem depois de ti. Porque depois de mortos, terão visto exactamente o mesmo que tu.

Amas ou não uma mulher, mas não sabes porquê. Como hás-de poder saber a razão do bem e do mal?

Não afirmes o erro de uma verdade, antes de mudar o seu contexto. A menos que te dê gozo levar pedradas.

O difícil em arte é criar-se emoção sem se mostrar que se está emocionado. Ou estar emocionado para antes e depois de se estar. Ou ter a emoção ao lado para nela ir enchendo a caneta.

A verdade «sou eu». Quando o outro disse «o Estado sou eu», disse a mesma coisa. Só que meteu a polícia para não haver dúvidas e outros a dizê-lo também.

A verdadeira pergunta é inocente e é por isso mais própria da criança. A resposta perdeu já a inocência e é assim mais própria do adulto.

O contrário do pessimismo raramente é o otimismo. O contrário do pessimismo, se não é a boa intenção de injetar força nos fracos, o que é bonito e faz bem, é quase sempre a idiota.

Como saber que se falhou, se não sabendo como não falhar? Mas então porque se falha? E se saber que se falha é realmente ignorar como se não falharia? Sabemos de outros que não falharam, porque sabemos então neles o que é não falhar.

Na juventude os chamados ideias orientadores da vida, mesmo os grandes projectos que excedam os de se subsistir, não fazem muita falta. Porque ser jovem é ter já tudo isso como substituto de tudo isso.

Numa situação intensa não sabemos que dizer. Para isso é que há o formalismo do silêncio, traduzido num abraço de emoção ou nos «sentidos pêsames» sem emoção nenhuma.

A verdade és tu. O que mais que se segue já não interessa à conversa. Excepto para demonstrares essa verdade, em movimento de recuo.

Fecha os olhos para não seres cego.

Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá.

A melhor forma de não ouvires o que ouves e te incomoda é não o ouvires.

Vê se uma tua ideia se não torna um lugar-comum para te não dizerem que te serves de um lugar-comum quando por acaso a repetires.

A arte deve servir-se fria. Pode ter álcool por dentro. Mas tem de ser álcool que se tirou do frigorífico.

Pensar. E se o pensar fosse uma doença, mesmo que dela resulte uma pérola?.

Só o que é de mais é que é bastante.

Pois, A emoção é decerto uma forma de se subir mais alto. E quando cai, de se cair de mais alto. Aprende a serenidade. Porque mesmo que caias, não te magoas tanto.

A verdade só é perfeita nos instantes de fulgor.

Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê.

No amor nunca os pratos da balança estão equilibrados. E como a essência do amor é etérea, quem pesa mais é quem ama menos.

A verdade absoluta, que coisa aflitiva, afinal. Porque se se não tem, como ordenar a vida que é nossa? Mas se se tem, como não anular a vida dos outros que são contra ela?

Uma vida só tem história do princípio para o fim, se a tiver do fim para o princípio.

Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim.

Quanto mais alto se sobe, mais longe é o horizonte.

Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha.

E eu disse-lhe: o melhor da vida é o seu impossível. E ela disse-me: isso não tem sentido nenhum. E eu dei-lhe razão, mas não sabia porquê. Ou seja, pela melhor razão que podia ter.

O amor acrescenta-nos com o que amarmos. O ódio diminui-nos. Se amares o universo, serás do tamanho dele. Mas quanto mais odiares, mais ficas apenas do teu. Porque odeias tanto? Compra uma tabuada. E aprende a fazer contas.

Não poderás vencer a morte. Mas impõe-lhe a vida como um bandarilheiro e verás que muitas vezes ela marra no vazio.

O amor e o ódio são irmãos. Mas o ódio é um irmão bastardo.

O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.

A verdade primeiro ama-se, depois demonstra-se.

A espécie compromete-se com um casal a que haja amor entre os dois. Mas logo que se apanha servida, vira-lhes as costas e eles que se arranjem.

O maior paradoxo do desejo não está em procurar-se sempre outra coisa: está em se procurar a mesma, depois de se ter encontrado.

No grande artista há uma falha a preencher e no pequeno uma falha a compensar. O primeiro nunca o consegue.

A razão é um elástico. Vê se consegues não a esticar muito para não rebentar.

Ri sempre de maneira que alguém fique, sem saberes, a chorar dentro de ti. Porque se o riso permanece, o que encontra dentro de ti é o idiota que lá estava à sua espera.

Há o que tem limite e o que é sem-limite. A arte é a forma perfeita da consciência destes opostos.

A melhor forma de te não dizerem pequeno é dizeres dos outros que são grandes. Sobretudo se for mentira.

A pátria, como tudo, és tu. Se for também a do teu adversário político, é já problemático haver pátria que chegue para os dois.

Toda a verdade e todo o erro, se repetidos mil vezes, tendem a converter-se no seu contrário. Apenas pela razão de nos fatigarem.

Falhaste a vida, é evidente. Mas não o digas. Porque haverá logo quem venha proclamar em alvoroço que tu mesmo afinal confessas que falhaste para o cretino trombeteiro se julgar menos falhado e os cretinos como ele.

Não te queixes tanto das falhas de memória. Porque se soubesses tudo o que soubeste, não te poderias mexer. E então é que não terias nenhuma.

De que te serve a inteligência, se não tens inteligência para a usar com inteligência?

Nenhum vício se pode combater pelos malefícios que traz, mas sim, por não ser aceitável para a opinião que dele têm os outros. Se queres combater o tabaco, não digas que faz mal. Diz apenas que parece mal.

No amor nunca os pratos da balança estão equilibrados. E como a essência do amor é etérea, quem pesa mais é quem ama menos.

Para o artista, querer não é poder, mas apenas poder querer. Disso se faz a sua glória e o seu desastre. Há todavia aí uma glória sem desastre nenhum, que é habitar num momento de ilusão o palácio encantado do mistério e maravilha. E é o pouco que é bastante. O que fica depois são os despojos desse tudo.

Deus inventou o sexo, nós inventámos o amor. Ele tinha razão.

Tenho tantas saudades de ser eu. De ver. De me deslumbrar numa iluminação.

Ama o próximo como a ti mesmo. É um grande risco. Eu, por exemplo, detesto-me.

Realizei uma obra, fiz nela a minha proposta, disse o que tinha a dizer. (...) Publiquei Para Sempre.

Não comunico com o mundo pelos pés ou pelas mãos ou os olhos. Comunico pelo bico da caneta. E por ele transmito o influxo da vida como pelo dedo de um Deus.

Somos um país de analfabetos. Destes alguns não sabem ler.

Não se pode imaginar uma cor, fora das cores do espectro solar. Não se pode ouvir um som, fora da nossa escala auditiva. Não se pode pensar, fora das possibilidades da lingua em que se pensa.

Achariámos rídiculo que se pudesse dizer, por exemplo, de um amoroso repudiadom que ele sofreu três polegadas de vexame ou meio quilo de opróbrio. Mas é exactamente o mesmo que acontece ao dizer-se que se esteve três quartos de hora à espera da namorada no café, porque a paciência não tem nada a haver com o percurso solar.

Admira-se uma obra com a inteligência e ama-se com a pessoa toda. Por isso é mais económico admrar do que amar.

A arte inscreve no coração do homem o que a vida lhe revelou sem ele saber como.

A arte nasce de uma solidão e dirige-se a outra solidão.

A arte tem o dom de dar beleza. mesmo ao que nasceu e se criou para a fealdade.

A beleza é do imaginário e a imaginação é uma forma de se possuir o que não se possui.

A Ciência não é um meio de "explicar", mas apenas de "constatar" o que descobriu provisoriamente nisso que constatou.

A eternidade não se mede pela sua duração, mas pela intensidade com que a vivemos.

A grande revolução da poesia de Pessoa foi a sua intelectualização.

Há mais sossego na simples melancolia do que em todas as alegrias muito altas.

Há monumentos ao soldado desconhecido. Mas não há só um só aos heróis a que não calhou poderem sê-lo.

A história está cheia de grandes renovadores dela. Ou dos que lhe falharam a renovação. Porque é que Cristo acertou em dois milénios e Marx não chegou a acertar num século?

A morte apenas subscreve o que já somos como excedentários. E há só que deixá-la rubricar à pressa o nosso destino, que tem mais que fazer.

A música é sempre anterior a si, de tempo nenhum, de um absoluto não presentificado, de um tempo anterior ao tempo, de um fora dele, da eternidade.

Nas utopias que até hoje se imaginaram faltou sempre imaginar o que aconteceria depois. Que se imagine uma vida em que se realizasse tudo o que se desejasse. Alguma coisa faltaria ainda em tudo em que já não faltava, e não saberiamos o quê. É isso que não sabes que é fundamental.

Não há pergunta sobre o para quê de uma flor que lhe tire o encantamento. O sentido de ser é o ser.

Nós exigimos a liberdade mas igualmente a sua razão de ser. Que é que justifica uma luz que nada ilumina e se perde no vazio?

Nós sofremos com a morte porque não nos foi infligido o horror de não podermos morrer.

O comunismo distingue-se fundamentalmente do facismo porque foi o primeiro.

O corpo entende-se, a alma compreende-se.

O corpo explica-se e pode discutir-se. A alma é inexplicável e só há que recriá-la em nós ou recusá-la.

O estilo de um grande artista, ele próprio não o sabe. Como a sua voz. Ou os seus gestos. Ou a mímica do seu rosto quando fala. Porque quando o souber tê-lo-ia já perdido.

O homem é um ser fictício em todo o seu ser. E é precisa Morte para ele enfim ser verdadeiro.




Biografia de Vergílio Ferreira (1916-1997)

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