sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Tabaco

Saio de casa para comprar tabaco. Pensei que iria conseguir resistir, e adormecer sem ter de matar primeiro o vício. Aguentei o mais que pude. Mas são já oito horas e provavelmente o café aqui ao lado já estará aberto. Não. Tal como previa, está fechado. Estou na rua, não vou voltar para casa. Não faz mal. Aproveito e vou até à tabacaria comprar de enrolar. Espero que ainda tenham ao preço antigo, ou daquela marca nova barata, mas com a nojenta bandeira do império americano. Pagamos com o fruto da nossa escravidão para que nos matem, de uma forma mais rápida... Não. Existe sim, mas só com o preço actualizado. O meu dinheiro não chega. Desde que me diminuiram o ordenado, para aumentar em milésimas o lucro dos magnatas, todos os meus cêntimos têm de ser escrupulosamente calculados para que as minhas dívidas não cresçam desgovernadamente. Enquanto penso nisto, e reparo que não há marcas baratas neste quiosque, meto-me ao caminho e dou graças por não ter encontrado o café aberto. Teria gasto dois euros e meio numa caixa de tabaco normal que me daria nem para dois dias. Decido seguir mais um pouco, e tento ir a um outro quiosque que encontro fechado. A tentação de uma máquina de tabaco na padaria ao lado, só me reforça a decisão de andar mais dois quarteirões até à próxima tabacaria. Vou descendo a rua em contra-ciclo, e reparo que nada tenho em comum com aqueles que a sobem. A geração dos conformados prepara-se para mais um dia de trabalho. Chego à tabacaria. Na porta um adolescente espera. Parece-me algo assustado. Não sei se está na fila ou não, e fica ali naquele meio termo, imóvel. Só esboçou um movimento quando o seu pai, já atendido, sai do quiosque e o chama. Reparo que acabou de jogar no euromilhões. A ilusão da liberdade. Não há tabaco para a minha carteira. Ou melhor, há, mas é de uma marca da qual não gosto. Não vou voltar para casa de mãos a abanar. O Sr. diz-me que existe uma marca nova, mas que custa três euros. O meu dinheiro não chega. Antes do aumento de impostos chegaria perfeitamente. Trago a marca foleira, e saio satisfeito. No mesmõ instante avisto um outro quiosque ao fundo da rua e lamento já ter efectuado a compra. De nada me vale agora. Mas valeu a pena ter feito o caminho. Enquanto escrevo isto, fumo o meu terceiro, e reparo que não me está a saber assim tão mal. No entanto, pelo mesmo preço, poderia estar a fumar um tabaco de qualidade muito superior. Tem a merda da bandeira americana que estraga tudo, e que me levou a nunca antes ter comprado. Mas já é de facto um tabaco de boa qualidade. De resto, não é possível ser idealista, quando todos as marcas estão já na mão dos americanos (como este: "fabricated for Philip Morris Products, S.A."). É a nossa contribuição indirecta para o dinheiro que eles gastam em invasões de países e crimes contra os direitos humanos. Penso mais uma vez no tabaco que poderia estar agora a fumar, se tivesse tido mais calma, se tivesse pensado melhor, se não tivesse sido conformista e procurasse até ter encontrado aquele que queria...

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