domingo, fevereiro 05, 2006

GARDENSTATE

Sinto-me contidamente triste. Mas não é uma tristeza desesperante, como no passado, tantas vezes irrompia por mim quando o tédio se esgotava em si mesmo, e em mim todas as esperanças de qualquer mudança, me pareciam vãs e improváveis. É um tipo de tristeza que me assalta quando tudo parece estar bem, tendo como bem tudo o que é o normal decorrer dos dias iguais que se repetem no nosso ciclo de vida normal. A única causa que consigo encontrar para este ataque súbito de angústia, é a minha solidão. A minha distância de tudo e de todos, que fui escrupulosamente construíndo, e que tento manter a custo. Uma barreira que me protege dos outros, que serve para me esconder quando quero estar sozinho, e que só contra este desespero de me achar assim súbitamente sozinho, e entrar em pânico por isso, só disso dizia eu, não me consegue proteger. É como se eu tivesse procurado este refúgio no cimo da mais alta montanha, e tenha percorrido milhares de quilómetros para aqui chegar, e agora que aqui estou, entro em desespero pelo facto de estar tão longe da alma mais próxima. Acho tudo e todos desinteressantes, eu próprio incluído. Até o que eu escrevo, e o que eu sinto se torna para mim desinteressante, porque se repete, porque também esta maneira de expressar ideias se torna cíclica e os sentimentos que lhe dão origem também. Pois, é precisamente por adivinhar que este aperto azedo que neste momento me envolve a garganta, irá mais cedo ou mais tarde desaparecer, que digo que até os próprios sentimentos se acabam por repetir, e inevitávelmente adivinho-lhes o desfecho. Mesmo os maus, os extremos e preocupantes, acabam por se tornar previsíveis. Por exemplo, sei que neste momento me apetece desesperar, isto é enrolar-me na cama, cerrar os punhos com força, dobrado sobre mim próprio, sentir as ganas a apertarem e o choro a ameaçar soltar. Sei também que nunca passa da ameaça, salvo um ou outra gota que se escape, e sei também que depois de dormir estarei melhor, isto é, estarei de volta à normalidade. Provavelmente foi o facto de ter visto um filme, que me deixou assim. Só nos sentimos mesmo miseráveis, quando pensamos que a nossa normalidade não é assim tão normal, e no quanto poderemos estar enganados com a conformação perante essa normalidade. Claro está, que estas conclusões são conclusões do filme, e parto assim do princípio, uma vez mais, que me estou a sentir assim por causa do filme. Que filme foi esse? Ora isso deu-me uma excelente ideia. Em vez de . Lá está. é por isso que eu raramente vejo filmes. Os de acção e de adrenalina, não me dão adrenalina nenhuma, e os outros que apelam ao sentimentalismo, deixam-me de rastos por uns bons bocados. Ainda assim, este facto deu-me uma ideia aqui para o blog. Em vez de descrever os meus estados de espírito basta descrever aqui o nome do filme que vi recebntemente, e pouco mais. Então o filme de hoje foi o GARDENSTATE. Um filme escrito e realizado por um jovem actor, e que parece ser auto-biográfico. As semelhanças terão a ver com a idade?



A questão é que também eu me sinto sozinho deslocado. Parece que abandonei toda e qualquer relação que tenha com o mundo. Tudo me parece desenquadrado, e a todo o lado que vou, parece que não pertenço, que estive ausente, que sou novato... Por outro lado, cada vez mais me apetece estar sozinho. E quando preciso de estar sozinho, isolo-me e pronto. Não me interessa se alguém me vai procurar ou não, se alguém vai notar a minha presença, porque eu não crio raízes nem laços com nada nem ninguém. Nem com a minha própria família, que me vê ou sabe de mim quando o rei faz anos. Acho que fui habituando os outros assim a esta forma de ser minha, o que me leva a pensar se isto não será um pouco patológico. Isolar-me durante semanas, meses, ou dias, conforme me der na gana, e perante quem quer que seja. Aliás, não tenho ninguém que me veja ou saiba de mim numa base regular, e acho que é essa falta de uma base que me pôs a pensar depois do filme. Ainda assim, acho que não vou mudar, e ainda para mais acho que não quero perder essa liberdade de me desligar de tudo e de todos quando preciso. Se isso me trará dificuldades ao longo da vida é uma outra questão...

Tudo isto passará, e tornará a vir novamente...

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