segunda-feira, janeiro 10, 2005

Viagem

Arrumo as minhas coisas e parto. Circulo lentamente pela cidade pequena. Uma cidade que cheguei a visitar há muitos anos pelos meses de calor, como turista. Viajo pelas mesmas estradas que percorri na minha infância, e que me lembro, já na altura, tentava decorar a cada instante para não ter problemas no caminho de regresso. Estranhamente, não me causa nostalgia, nem saudade, nem sentimento nenhum. Contemplo descontraidamente a sua arquitectura, os seus edifícios, luzes, cores, e formas. Está deserta áquela hora. Entro na última rotunda, e preparo-me para sair. Não foi por vontade própria que ali regressei. Fui em trabalho, e não pude negá-lo ao patrão embora me apetecesse mandá-lo à merda. Espero não ter de voltar. Dizia sempre que era a última entrega, mas já tinha tido mais que tempo de recrutar um local para me evitar a deslocação.

Circulo já na via rápida que me trará de volta à grande cidade. A cidade onde vivo. Falta pouco para sair da auto-estrada. O mesmo caminho que já fazia nesse tempo, enquanto ansiava pelo regresso. Penso fazer uma viagem calma, a velocidade moderada, porque tenho pouco combustível e este deverá ser à conta para o regresso. Mantenho uma velocidade constante e aproveito inclusivé o balanço das descidas para poupá-lo.

Um carro verde entra numa das vias de aceleração lateral. Embora eu me desvie para a faixa da esquerda abrindo caminho para não interferir com a sua marcha, o condutor não acelera e ao invés, reduz a velocidade, colando-se atrás. Merda! Detesto viajar com carros na rectaguarda. Especialmente quando mantêm uma distância demasiado curta, mas não suficiente para sabermos se querem ultrapassar ou não, ou se vão apenas limitar-se a ficar ali, como uma sombra. Às tantas, dou com o meu pensamento tomado pela presença daquele carro. Não sei se deva manter um ritmo constante, ou se continue a poupar combustível, ou se aumente antes a velocidade e o deixe para trás. A última solução seria sem dúvida a melhor, não fosse a gravidade da escassez de gasolina.

Volto-me a aperceber da presença do condutor. Já não me deixo levar pela irritação, e encaro a situação como uma circunstância inevitável. Resigno-me à ideia. Acabo por criar uma espécie de cumplicidade, e desculpá-lo. Ainda assim prefiriria que ele me ultrapassasse, e vou-me a custo esforçando por não acertar a velocidade em função dele. Permaneço a este ritmo. O condutor ultrapassa finalmente. A personagem intriga-me, mas procuro não imaginar qual será o seu destino. Quero apenas aproveitar o percurso que me levaria ao meu, sem grandes preocupações.

Desta feita fico incomodado por circular com ele minha frente, e por não ganhar velocidade de uma vez por todas, já que tem o caminho livre. Tento ignorá-lo. Pudesse eu, e ultrapassá-lo-ia dissipando-me no seu horizonte... Preciso viajar sem ninguém por perto, para me poder concentrar de novo. Deixo-o ganhar novamente uma distância considerável.

Vejo ao fundo pirilampos azuis iluminando sinistramente a noite escura, e prevejo confusão na estrada... Reparo que o veículo da frente abrandou, lá ao
longe. Três viaturas paradas na berma, e um grande aparato que deixa prever sanções pesadas. Instintivamente sou levado a desviar-me para a esquerda para me afastar daquela confusão toda. Apenas por sorte não fui eu multado, já que era hábito infringir gravosamente a lei naquela recta. Já era altura de ter mais juízo, concluo.

Quando me apercebo que o perigo já tinha passado, dou por mim novamente sozinho na estrada. Sinto-me bem... Recordo a última vez que fiz este caminho. Foi há muitos anos, mas a motivação era a mesma. Deixar a cidade e regressar. O prazer de conduzir sozinho,e aproveitar a viagem para arrumar as ideias. Encaro a viagem como um mal necessário, e tento apreciar a paisagem.

O carro verde ganhou finalmente uma avanço considerável. Ainda bem. Será que fui eu com todas estas preocupações e dilemas, que acabei por lhe causar incómodo a ele? Ás tantas não será mentira nenhuma...

Sem me dar conta, reparo que estou novamente perto dele. Não há dúvidas de que a culpa agora é toda minha. Circulo a 120 km/h, porque me apetecia carregar no acelerador. Podia fazê-lo à vontade, se o ultrapassasse de uma vez por todas. Aqui não dá. Mas não sei se terei paciência para seguir a este ritmo quando deixarmos a via rápida e entrarmos na estrada secundária. Vejo a placa que anuncia o desvio, a 200 metros. De súbito, uma corrente de adrenalina injecta-se-me no sangue, piso o pedal, e preparo-me para ultrapassá-lo nesse instante, antes mesmo da saída.

Não... Desisto a meio da tentativa. Acabei por queimar bastante combustível para lhe ganhar a distância necessária, e depois de subir o ritmo, já não me apetecia abrandar e voltar ao ritmo normal... Além do mais poderia arriscar um acidente, causando-lhe problemas a ele, a mim, e a outros eventuais passageiros. Não havia tanta necessidade de pôr vidas em perigo, ainda mais quando já tinha decidido conduzir nas calmas. Foi sem dúvida a pior das opções.

Chegados ao cruzamento, ligo o pisca. Reparo que o veículo vai seguir em frente, e claro, não tomará o mesmo sentido. Estava prestes a fazer uma ultrapassagem arriscada, sem necessidade nenhuma... Ele continuou pela estrada principal, em direcção ao seu destino. Quanto a mim, sei apenas que tenho mais uns quilómetros de estrada secundária para percorrer, mas desta vez sem stresses...

Finalmente sigo viajando despreocupadamente... Devagar.., contemplando vagarosamente a paisagem... Reparo na imensidão daquele percurso nocturno, e delicio-me novamente com o prazer de conduzir sozinho, calmamente...




Muitas vezes implicamos com outros condutores, só pelo simples facto da sua presença. Depois tentamos ultrapassá-los de forma rápida e desastrada, pelo facto de sermos impacientes, acabando por pôr em perigo tanto nós próprios como terceiros. Vale a pena conduzir com calma e precaução. A bem de evitar
mais mortes neste país: Paz na estrada!

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