quarta-feira, novembro 30, 2005

A Pedra de Ouro

É díficil tentar compreender-te. Aliás, já me tinha mentalizado que isso era tarefa ingrata, e que o melhor era esquecer. Porque apesar de tudo sempre foi essa a mensagem que me quiseste passar, e pese embora o prejuízo de vergonha e de arrependimento face às figuras que fiz, não dei o tempo por perdido porque na altura isso fazia-me sentir bem, e fi-lo com gosto e entusiamo. E teria feito até muito mais se tivesse dependido só de mim. Nunca iria prometer nada, é certo, porque as promessas quando envolvem esse tipo de sentimento, soam-me sempre a falso. Não é possível antever os nossos sentimentos para as próximas horas, semanas, meses.., ou até anos, como tantos costumam fazer. Porque sou uma pessoa verdadeira e sincera, e porque para conseguir enganar os outros teria também de me enganar a mim. Não sou apologista de nenhuma das duas opções, e ainda mais me assutam quando aparecem conjugadas. Por isso sofro do risco de me dedicar abertamente a todas as coisas que me interessam, e de no fundo, não me dedicar fundamentalísticamente a nenhuma em particular.
Contudo, há sentimentos que são objectivamente raros, e que quando aparecem me deixam apreensivo. Há sentimentos especiais que só surgem de tempos a tempos, que são para mim como pepitas de ouro, que aparecem inesperadamente no caminho. Alguns levam-nas para casa, e escondem-nas, guardam-nas a sete chaves. Ficam felizes porque acharam um tesouro, e para eles aquele tesouro vale por si só, tem um valor simbólico, é o seu tesouro secreto. Fica escondido, secretamente. Ocasionalmente acharão outras pedritas, que juntarão ao seu espólio. Tesouro que quererão guardar infinitamente, pois o entendem como valioso por si só. Eu raramente tenho oportunidade de encontrar ouro. Mas quando o encontro não o guardo. Tento trocá-lo imediatamente por algo de concreto. E esse algo concreto vou oferecê-lo a alguém de que goste, pois a companhia ou a felicidade dessa pessoa (ainda que fugaz e momentânea) vale para mim muito mais do que as pedritas que na minha infância guardava religiosamente, e que deixei enterradas algures já não sei bem onde, e que também já nem quero lembrar, pois já não representam mais valor fora do contexto.
A ti, quis oferecer a minha companhia depois de ter achado um desses tesouros que se encontram por acaso. Esses momentos podiam ter sido curtos, podiam ter sido aborrecidos, podiam ter sido excepcionais, podiam ter sido o que quer que fossem, não adianta agora especular... Mas teriam sido, teriam acontecido, teriam existido, teriam ficado gravados na nossa memória, teriam sido linhas, ou páginas da nossa vida. Teriam dado algo de concreto para poder ser escrito, que não uma mera abstracção, uma mera virtualidade, uma mera ideia vaga... Que não o mero valor simbólico que representa uma pedra de ouro que enterraste já não sabes bem onde...
E não sei porquê, tens o sádico prazer de falar dela(s). De recordar as pepitas que guardaste, de recordar os tesouros que te passaram pelas mãos, mas que não tocaste. Nunca quiseste trocar a tua, e oferecer-me um momento da tua companhia. Não te censuro se as trocaste e ofereceste a outro(s). Mas sinto por ti o mais profundo dó, se a foste esconder novamente na terra, desejando esse valor. E a mais profunda indignação se te gabas disso e se continuas a achar que foi a decisão correcta...
E por isso, só entendo este teu reaparecimento de acordo com duas hipóteses. Na primeira delas, sentiste algo mas achaste que era melhor guardar e esquecer porque não tiveste coragem de concretizar. Contudo, e ainda segundo esta ideia, não queres esquecer, nem me queres deixar esquecer a mim, pese embora saibas que não queres fazer nada. Na segunda hipótese, não queres deixar morrer isto, não queres esquecer nem queres que eu te esqueça, e tens vontade de fazer e tentar não sabes bem o quê, para ousar reverter o rumo das coisas. Porém devo avisar-te que embora não negue ainda de todo o sentimento, repouso na convicção de que me redimi de todo o mal que te fiz, e tentei tudo o que na altura estava ao meu alcance. Por isso, a haver um segundo episódio, terias de ser tu a construí-lo, porque eu troquei as pepitas que tinha e ofereci-te a merda do momento. Tu é que não quiseste aproveitá-lo e deixaste-me lá à chuva, sem uma porcaria de uma resposta sequer...



O jogo passou para esse lado. Esse gesto tímido (de que já te arrependeste) foi importante e apreciado. Teve o poder de me acordar. Contudo para me mexer seria preciso muito mais. É a tua vez de fazer as despesas, se desejares algo mais do que uma pedra de ouro, valiosa para alguns, mas que por si só não passa de matéria morta...

1 Comentários:

Blogger Rita disse...

Cheguei a este blog por acaso, coisas de quem não tem nada para fazer numa madrugada de 4ª feira.. Dei apenas uma leitura rápida pelo último post do "desvaneio de um louco" e fiquei completamente absorvida pelo que li...

quarta nov 30, 05:08:00 da manhã 2005  

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