sexta-feira, novembro 20, 2015

Fim

Tudo acabou, irremediavelmente. Lembro-me de um grande professor meu do quarto ano, que muito admiro, ter dito, em jeito de brincadeira, sobre a diferença entre neuróticos e psicóticos: "os neuróticos constroem castelos no ar, os psicóticos habitam-nos". Não deixa de ser irónico que eu, que durante toda a minha vida defendi a liberdade e em nome dela passei a maior parte da minha vida sempre sozinho, tenha perdido com a justificação da liberdade, a mulher que amei e com quem sentia que tinha sido feliz durante algum tempo. Talvez porque nunca soube verdadeiramente o que era ser feliz, e aquilo era o que mais se aproximava. Construí um castelo no ar, durante 12 anos, no qual me imaginei a viver com ela, a criar um filho, a levá-lo à praia com ela, a jantar fora juntos, etc, projectando nessa realidade imaginária a minha infância com os meus pais - tomando o lugar do meu pai e imaginando-a no lugar da minha mãe (ao que ajudou existirem algumas semelhanças entre as duas). E assim chega ao fim um ciclo. Caberá a um qualquer psicótico habitar esse castelo. Já eu, até hoje, sempre quis acreditar que, demorasse o tempo que demorasse, o sentimento acabaria por prevalecer, e acabaríamos por ficar juntos, como aconteceu com tantas outras histórias parecidas que conheço. Mas já não será assim. Porque o mesmo sentimento não existia do outro lado. Passei tanto tempo a sentir-me culpado, que nunca cheguei a perceber que existiu sofrimento da parte dela, mas que nunca existiu amor. Sofri, ainda mais, por ter construído e alimentado este castelo, esta fantasia, que no final era apenas minha. Sofro agora porque, durante 12 anos, quis sempre acreditar que havia alguém que sentia o mesmo que eu, concebendo uma imagem dela que não era real, uma imagem à minha semelhança. Ironia também porque, nos primeiros tempos, eu não a amava - fisicamente não era o meu género, achava que não era suficientemente inteligente, aventureira, desinibida, vanguardista, e que lhe faltava o sangue na guelra. Assim, prossegui a minha busca, esperando encontrar alguém que correspondesse a essas exigências. Mas sempre mantendo algum contacto e constatando que, à medida que as outras iam falhando na comparação com esse ideal, ela continuava sempre a esclarecer os mal-entendidos e a abater os meus preconceitos básicos, afirmando-se cada vez mais como capaz, prevalecendo como "a tal", esmagando a concorrência. Uma imagem que não apenas ia sobrevivendo, como parecia que me acompanhava sempre, para onde quer que eu fosse. E após anos e anos de experimentação, de libertinagem, de boémia, em suma, de liberdade, assisto agora à emancipação da "discípula" de tempos idos, que decide agora empreender a caminhada que o seu "mestre" tanto privilegiava nessa altura, ao ponto de eu ter ignorado por tanto tempo a evidência que sempre ali esteve especada à minha frente - a mulher perfeita e ideal para mim, o maior e grande amor da minha vida era ela (assim ela me amasse). Desta forma se escreve o último capítulo desta história. A paixão, fascínio ou interesse, que ela um dia afirmou ter tido por mim, evanesceu-se, evaporou-se, secou e desapareceu. Talvez nunca tenha sequer chegado a existir e fosse apenas uma defesa contra o facto de ser rejeitada. Talvez fosse apenas um carência afectiva. Tal como nas inúmeras vezes em que a tentei resgatar de uma vida monótona e sensaborona, na esperança de construir aquela que seria, no meu entender, a vida mais aventureira e excitante que alguém lhe poderia alguma vez oferecer, vejo uma vez mais, mas desta vez em definitivo, o meu convite rejeitado. Por vezes, não consigo deixar de pensar se ela, nesta sua busca fora de tempo que apenas agora inicia, não estará a fazer precisamente o mesmo que eu fiz naquela época - decidir ir à procura de uma imagem abstracta do ideal, quando o real sempre esteve ali à sua frente. Esperemos que não, porque ao contrário da minha clarividência, resultante de tantas tentativas frustradas, e que me levavam sempre a procurar a mesma fonte de pureza e inocência, ela, nesta altura, a idade já não permitirá segundas oportunidades. Assim terminou a minha história de amor com Luciana, que neste blogue se chamava Lúcia, e que foi o grande amor da minha vida, mesmo que vivido apenas por mim, de forma hiperbólica, na ressaca de todos estes anos, enquanto buscava algo ou alguém que me fizesse sentir completo e feliz. Nessa busca não encontrei ninguém, mas encontrei o que procurava dentro de mim, nas minhas memórias dos momentos passados com ela. Malograda a tentativa de resgate, resta-me a consciência de ter feito tudo o que podia e o que não podia, disposto a sacrificar o meu futuro profissional e o mais que houvesse, apenas para poder acordar todos os dias ao lado da mulher que amo, e poder abraçá-la infinitamente... Abraços esses que ficarão para sempre na minha memória e que serão a minha maldição eterna, por nunca ter conseguido voltar a encontrar alguém que me fizesse sentir no paraíso com apenas um abraço. Se eu fiz e disse tudo o que podia ter feito para podermos ficar juntos, e se essa pessoa responde que nada sente por mim, que mais poderia eu fazer? Nada. Absolutamente nada. E da mesma forma que a fui idealizando e aperfeiçoando na minha memória, resta-me agora fazer o percurso inverso, tentando desalojar a sua imagem de dentro de mim, onde mora há já doze anos. Sempre que penso nisto, repito a mim próprio: a mulher que me faria feliz não é aquela que toma a decisão de afastar-se, mas antes aquela que lutaria por mim e me seguiria até ao inferno, se necessário, para me resgatar, tal como eu faria com ela. Onde estará essa mulher então? Será que alguma vez irei conhecê-la? Se não surgiu até agora, que esperança posso ter de vir a encontrá-la? Temo que esse ideal seja apenas uma ilusão. Sei também que o tempo já escasseia... Tantos anos de frustrações, até com aquela que, ingenuamente, imaginava que me amava, não auguram nada de bom... Resta-me a solidão e as memórias desse curto espaço de tempo em que julguei ter alcançado a felicidade, ainda que, nessa altura, nem o sentisse nem o valorizasse, para recordar quando a morte me vier chamar. Acabou. E desta foi de vez. Não quero mais pensar. Fim.

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